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De Gotham a Seul: por que a cultura geek está cada vez mais apaixonada pelos doramas

Reparei nisso pela primeira vez num grupo de Discord que eu achava que só falava de patch notes e teoria de multiverso. No meio da conversa sobre o próximo lançamento da Marvel, alguém soltou o nome de um K-drama e três pessoas responderam animadas. Fiquei tentando entender quando exatamente doramas viraram assunto de gente que cresceu discutindo anime e videogame. A resposta, quando parei pra pensar, é meio óbvia.

Quem gosta de cultura geek nunca teve paciência com história rasa. O pessoal de ficção científica quer regra clara pro universo. Quem joga RPG quer sistema de poder que faça sentido. Fã de anime aguenta trinta episódios de arco emocional sem reclamar, desde que o final compense. E é engraçado como o dorama entrega quase a mesma coisa, só que em outro empacotamento: doze a vinte episódios, começo e fim marcados, e uma obsessão por detalhe de produção (figurino, trilha, fotografia) que lembra bastante o cuidado que a gente já exige de um anime de estúdio grande.

E tem produção coreana recente brincando abertamente com viagem no tempo, universo paralelo, zumbi, poder sobrenatural, corporação distópica, webtoon virando série. A distância entre “assistir anime” e “assistir dorama” encolheu mais rápido do que eu esperava. Cheguei a discutir isso com um amigo que só assiste anime há uns quinze anos e nunca tinha visto um dorama sequer. Mostrei um episódio de uma série com viagem no tempo e ele passou o fim de semana inteiro maratonando o resto sozinho.

O streaming resolveu um problema que a gente nem sabia que ia ser resolvido

Por muito tempo, quem queria acompanhar produção asiática por aqui dependia de fansub e torrent, o mesmo caminho que o anime percorreu antes do Crunchyroll pegar força no Brasil. Com Netflix, Prime Video, Viki e Disney+ brigando por catálogo internacional, isso praticamente sumiu. Hoje um lançamento coreano sai com legenda em português no mesmo dia da estreia na Coreia do Sul. Há dez anos isso seria piada.

Essa disputa de streaming por conteúdo fora do eixo Hollywood é a mesma que já aparece no noticiário geek: série estreando na HBO Max, produção chegando ao Disney+, gente trocando TV a cabo por internet. O dorama simplesmente entrou nessa onda.

Fandom é fandom em qualquer idioma

Quem já ficou horas discutindo teoria de final de série de herói, ou brigou em fórum defendendo um shipping, reconhece na hora o comportamento de quem assiste dorama: wiki detalhada, thread de teoria episódio por episódio, meme circulando minutos depois da estreia, gente acompanhando bastidor com o mesmo tesão que acompanha o produto final.

Não é à toa que sites e comunidades sobre dorama cresceram tanto no Brasil nos últimos anos. Assim como quem gosta de game e anime tem seus hubs de notícia, quem gosta de dorama passou a ter os próprios espaços, cobrindo ficha técnica, elenco, bastidor, lançamento. Um exemplo que uso bastante é o Melhores Doramas, portal brasileiro com recomendação, notícia e catálogo de K-drama, C-drama e J-drama. Na prática funciona como um portal geek, só que virado inteiramente pro audiovisual asiático.

Os gêneros batem direto no gosto de quem já é geek

Se ainda restar dúvida sobre a proximidade entre os dois universos, dá pra olhar pros próprios títulos. Teve produção coreana explorando jogo mortal em formato de competição e experimento social em escala absurda, coisa que qualquer fã de ficção científica ocidental reconhece de cara. Teve história de reencarnação, deus da morte, maldição atravessando gerações, com direção de arte que não fica devendo pra nenhuma fantasia hollywoodiana. Teve adaptação direta de webtoon, o que aproxima ainda mais quem já lê quadrinho e mangá. Ver o traço ganhar vida em live-action dá a mesma sensação de ver um mangá virar anime. E teve trama de conglomerado, sucessão familiar, disputa de poder, no mesmo tom de série ocidental que já é clássica no imaginário geek, só que com ritmo e estética bem particulares do lado asiático.

O que mais me pega, particularmente, é como esses roteiros não têm medo de misturar gênero dentro do mesmo título. Um dorama pode começar como comédia romântica leve e, sem aviso, virar thriller policial com direito a assassinato e conspiração corporativa no meio do caminho. Isso incomoda gente acostumada com série ocidental que segmenta tudo em gênero fixo, mas pra quem já leu manga que muda de tom capítulo a capítulo, é familiar demais.

O jeito de consumir muda, e isso é bom

Uma coisa que sinto na pele quando recomendo dorama pra alguém do universo geek tradicional é o ritmo. Série ocidental estica por temporadas e temporadas, às vezes sem nunca fechar direito. O formato coreano geralmente resolve tudo numa temporada só, com início, meio e fim definidos desde o roteiro. Pra quem já cansou de esperar anos por um final que talvez nem venha, isso é um alívio.

A qualidade técnica também surpreende quem chega de fora: cinematografia, direção de arte, trilha original, tudo tratado com o cuidado que se espera de um jogo AAA ou de um anime de estúdio consagrado. Já vi gente comparando a estética de um dorama de fantasia com a direção de arte de jogo aclamado, e a comparação faz sentido.

Tem outro detalhe que ninguém comenta muito: o elenco costuma repetir entre produções, meio como acontece com dublador de anime ou ator de franquia de herói. Depois de assistir uns cinco ou seis títulos, você começa a reconhecer rosto, e aquilo vira quase um jogo à parte, tipo “ué, esse ator não fazia o vilão daquele outro dorama?”. É o mesmo prazer de reconhecer a voz de um dublador em animes diferentes, só que aplicado a atores em vez de vozes.

Se ainda não experimentou, vale a tentativa

Quem cresceu maratonando anime, discutindo lore de jogo e prestando atenção em cada detalhe de universo ficcional complexo tende a se render ao dorama rápido. A entrada é fácil: escolhe um título bem avaliado, dá dois ou três episódios de chance, deixa a história fazer o trabalho dela.

Antes de escolher o primeiro título, ajuda dar uma olhada em comunidade especializada. O Melhores Doramas organiza recomendação por gênero, cobre lançamento e traz ficha técnica completa. Ajuda bastante quem está entrando agora e não quer gastar tempo com algo que não combina com o próprio gosto.

A linha entre cultura geek e cultura de dorama já está bem fina. As duas vêm do mesmo impulso: querer mergulhar numa história bem feita, discutir cada detalhe com outra pessoa que também se importa, acompanhar o bastidor de perto. Muda só o idioma da legenda.