Há algumas semanas, Martin Scorsese, diretor ganhador do Oscar por Os Infiltrados, fez alguns comentários sobre filmes de heróis que acabaram gerando polêmica. Muitos atores e diretores deram sua opinião sobre a questão e, agora, o próprio Scorsese enviou uma longa carta ao The New York Times na qual elabora melhor o que quis dizer quando afirmou que os filmes da Marvel não seriam cinema.
Confira abaixo alguns trechos:
Muitos filmes de franquia são feitos por pessoas de talento e habilidade consideráveis. Você pode ver isso na tela. O fato de que os filmes em si não me interessam é uma questão de gosto pessoal e temperamento. Eu sei que se eu fosse mais jovem, se eu tivesse me tornado adulto mais tarde, eu poderia ficar empolgado por esses filmes e talvez até quisesse fazer um. Mas eu cresci quando cresci e eu desenvolvi um gosto por filmes – do que eles eram e do que poderiam ser – que é tão longe do Universo da Marvel quanto nós na Terra estamos de Alpha Centauri.
Para mim, para os cineastas que eu aprendi a amar e respeitar, para meus amigos que começaram a fazer filmes mais ou menos na mesma época que eu comecei, cinema era sobre revelação – estética, emocional e espiritual. Era sobre os personagens – a complexidade das pessoas e suas contradições e às vezes a natureza paradoxal, a maneira que eles ferem uns aos outros, amam uns aos outros e de repente tem que encarar a si mesmos.
O diretor chega até mesmo a citar que alguns dos filmes de cineastas aclamados como Alfred Hitchcock poderiam ser considerados uma franquia em sua época e que teriam algumas características de “parque de diversão”, assim como os filmes da Marvel, mas que esse não é o atributo que os define. Entretanto, segundo Scorsese, o mesmo não pode ser dito dos longas de super-heróis:
Muitos dos elementos que definem cinema como eu conheço estão nos longas da Marvel. O que não está lá é a revelação, o mistério ou um verdadeiro perigo emocional. Nada está em risco. Esses filmes são feitos para satisfazer um conjunto especifico de demandas e eles são pensados como variações de um número finito de temas.
Eles são sequências no nome, mas são remakes no espírito e tudo neles é oficialmente sancionado pois não há como realmente ser de qualquer outra maneira. Essa é a natureza de franquias modernas: pesquisadas no mercado, testadas com o público, vetadas, modificadas, vetadas novamente, e alteradas até que estejam prontas para consumo.
Scorsese cita que atualmente, vários cineastas estão indo na contramão dessa ideia e que conseguem surpreender completamente o público e expandir o que o cinema pode ser, como Paul Thomas Anderson (Vício Inerente), Claire Denis (High Life), Spike Lee (Infiltrado na Klan), Ari Aster (Hereditário), Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror) e Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste). Ele também explica o motivo para simplesmente não deixar essa questão de lado:
Então, você pode questionar, qual é o meu problema? Por que apenas não deixar outros filmes de super-heróis e outras franquias pra lá? O motivo é simples. Em muitos lugares neste país e ao redor do mundo, os filmes de franquias são atualmente sua escolha principal se você quer ver algo na telona. É uma época perigosa na exibição de filmes e tem cada vez menos cinemas independentes. A equação mudou e o streaming se tornou o principal meio de exibição. Ainda assim, eu não conheço um único cineasta que não queira fazer filmes para a tela grande, para ser projetado para a audiência em cinemas.
Scorsese admite que isso o inclui, mesmo falando como alguém que fez um acordo com a Netflix que permitiu que O Irlandês fosse feito da maneira que ele gostaria e também com um breve período de exibição nos cinemas. Entretanto, ele comenta que gostaria que o longa ficasse mais tempo disponível nas telonas e lamenta que a maioria das salas de cinema estão lotadas de longas de franquias. Ele também comenta que isso não é uma mera questão de demanda
Se você vai me dizer que isso é uma simples questão de oferta, demanda e dar às pessoas o que elas querem, eu vou discordar. É uma questão de ovo e galinha. Se as pessoas só recebem um tipo de coisa e são incessantemente bombardeadas com um tipo de coisa, é claro que elas vão querer mais daquele tipo de coisa.
O novo filme de Scorsese, O Irlandês, estreia em 27 de novembro na Netflix.
Fonte: Jovem Nerd
