Existe um ditado popular que diz que o brasileiro não gosta de futebol, mas gosta é de ganhar. Não importa em que esporte ou lugar estamos, se tem um brasileiro competindo vamos torcer e vibrar como se não houvesse amanhã. E no cinema não é diferente: desde que o mundo é mundo temos o sonho dourado de vencer o maior prêmio do cinema americano. Algumas vezes chegamos muito perto e há até quem diga fomos “roubados” em certas categorias.
Ao todo, são 34 indicações entre filmes estrangeiros, direção de arte, música, roteiro e documentários. Mas só SEIS filmes inteiramente brasileiros foram indicados ao Oscar.
O Pagador de Promessas (Oscar de 1963)
O filme dirigido por Anselmo Duarte foi adaptado de uma peça de teatro escrita por Dias Gomes. Até hoje, O Pagador de Promessas (1962) é o único longa-metragem brasileiro a vencer a Palma d’Ouro no Festival de Cannes, um dos mais importantes do circuito internacional. Em 2015, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema nomeou o longa como um dos 100 melhores de todos os tempos.
O Pagador de Promessas é ambientado em Salvador e conta a história de um homem que tenta cumprir a promessa de carregar uma grande cruz de madeira pela cidade. A promessa foi feita em um terreiro de candomblé e a Igreja católica não fica nada feliz com essa ação.
O filme foi indicado ao Oscar na categoria Melhor Filme Estrangeiro, mas quem levou foi o drama francês Sempre aos Domingos (1962).
O Quatrilho (Oscar de 1996)
Três décadas depois de Pagador de Promessas, O Quatrilho (1995) repetiu o feito falando sobre uma comunidade Rural no Rio Grande do Sul. A trama do filme dirigido por Fábio Barreto mostra dois casais de amigos que acabam cometendo traições entre si. A produção estrelada por Patrícia Pillar era baseada em uma história real e os cenários do filme se tornaram até pontos turísticos em Farroupilha, no sul do país. Antes de ser indicado ao Oscar, o filme venceu o Festival de Havana, em Cuba, e Tóquio, no Japão.
O Quatrilho foi indicado na categoria Melhor Filme Estrangeiro, mas também não foi dessa vez… Quem levou a estatueta foi a comédia dramática A Excêntrica Família de Antônia (1995) vindo dos Países Baixos.
O Que é Isso Companheiro (Oscar de 1998)
Com Pedro Cardoso, Fernanda Torres e Matheus Nachtergaele, o filme de Bruno Barreto adapta o best-seller do jornalista Fernando Gabeira para os cinemas. O Que é Isso Companheiro (1997) contou a história real do sequestro do então embaixador americano em terras brasileiras. O mais curioso dessa indicação é que Bruno Barreto é irmão de Fábio Barreto — que foi indicado dois anos antes por O Quartilho, também para Melhor Filme Estrangeiro. Sobrenome abençoado!
Quem levou o prêmio foi o filme holandês, Karaketer (1997)
Uma História de Futebol (Oscar de 2001)
O curta de 21 minutos é nossa única indicação ao prêmio de melhor curta e narra a história da infância de Pelé. As histórias do jogador são contadas através do olhar de um amigo de infância relembrando o passado depois de adulto.
Apesar do sucesso nacional, o filme perdeu a estatueta para Quiero ser (2000), uma coprodução entre México e Alemanha.
Cidade de Deus (Oscar de 2004)

O filme indicado a Melhor Direção, Edição, Roteiro e Fotografia é o longa brasileiro mais conhecido fora do país. Cidade de Deus (2002) também causou polêmica durante a campanha para ser indicado ao Oscar. Em uma matéria da época, a Folha de S. Paulo disse que muitos votantes da Academia saíram das salas de cinema antes mesmo do filme terminar. O motivo da debandada era a violência que chocava o público majoritariamente idoso.
O filme causou um impacto enorme nos Estados Unidos — muito diferente do que era comum para os filmes estrangeiros da época. Steven Spielberg vibrou com a produção e Cidade de Deus foi exibido em 70 salas em Nova York (um número expressivo para filmes não-americanos). O longa dirigido por Fernando Meirelles chegou a rivalizar em bilheteria com o musical americano Chicago — que venceu o Oscar de Melhor Filme em 2004.
Uma curiosidade é que, um ano antes do sucesso, Cidade de Deus foi ignorado por Hollywood e ficou de fora da disputa como melhor filme estrangeiro em 2003. A Academia viu a injustiça cometida e acabou indicando o filme a quatro categorias no ano seguinte, quando o filme lançou em circuito comercial. Ainda assim, Cidade de Deus continuou sem levar uma estátua para casa, mas trouxe consigo muito prestígio internacional naquele voo de volta de Los Angeles.
O Menino e o Mundo (Oscar de 2016)
Lançado em 2013, O Menino e o Mundo (2013) foi na contramão do mercado e apostou em uma animação com pouco uso de tecnologia — quase artesanal e muito delicada. O filme quase sem falas encantou o mundo e chegou a ganhar prêmios importantes na área da animação, como o Annie Awards e o Annecy.
Como a produção realizada por Alê Abreu era totalmente independente, o dinheiro para divulgar a obra nos Estados Unidos era escasso. Essa foi a primeira animação inteiramente brasileira no Oscar, e quem levou o Oscar de Melhor Filme de Animação na disputa foi Divertida Mente (2015).

Outras indicações
Também há filmes com brasileiros na equipe que foram indicados ao Oscar e que valem menção, apesar de não terem produção 100% nacional. Os exemplos mais recentes são os documentários Lixo Extraordinário (2010), Sal da Terra (2014); também a ficção Me Chame Pelo Seu Nome (2017) no ano passado.
E aí entra também o emblemático Central do Brasil (1998): o longa indicado como melhor filme estrangeiro foi uma coprodução entre Brasil-França. Apesar de não ser 100% brazuca, a história de superação contada por Walter Salles acabou trazendo a nossa histórica única indicação para uma categoria de atuação. A polêmica derrota de Fernanda Montenegro para Gwyneth Paltrow (Shakespeare Apaixonado), em 1999, entristeceu brasileiros e se tornou um marco para o nosso cinema.

Na categoria de Canção Original já fomos indicados duas vezes: com Ary Barroso no filme Brazil (1944) e com Carlinhos Brown na animação Rio (2011), que contou com a direção de Carlos Saldanha.
Saldanha é também responsável por A Era do Gelo (2002) e Touro Ferdinando (2017). O animador e diretor é um velho conhecido do Oscar e já flertou várias vezes com a categoria de Melhor Animação. Infelizmente, Saldanha não conseguiu se sagrar vitorioso em nenhuma das suas duas indicações: nas duas oportunidades (2004 e 2018), ele foi derrotado pela Pixar.
Mas e agora?
Em 2019, fomos pré-selecionados para melhor animação por Tito e os Pássaros (2018) e melhor filme estrangeiro com Grande Circo Místico (2018). Nenhum dos dois filmes, entretanto, conseguiu uma indicação à premiação.
Com a eliminação precoce, o Brasil completa 20 anos sem uma indicação para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro. A última vez que concorremos foi em 1999 com Central do Brasil. Quem sabe no ano que vem? Afinal, brasileiro não desiste nunca.
Fonte: Jovem Nerd